Uma das muitas coisas que trazem culpa às mães com quem falo diariamente é o facto de sentirem que perdem demasiado a paciência. Acontece que, a paciência tem este paradoxo: quanto mais nos forçamos a tê-la, mais depressa acabamos por perdê-la. Porque quando estamos constantemente a julgar a nossa falta de paciência criamos uma tensão interna e quando tentamos anular essa tensão interna fingindo que ela não existe ou que não a estamos a sentir, acabamos por criar ainda mais tensão. E quanto mais tensão criamos, menos pacientes nos tornamos.
Porque para sermos pacientes ou tolerantes com os comportamentos que tocam nos nossos gatilhos, precisamos de estar tranquilos, em equilíbrio e quando passamos uma boa parte do dia a negar ou a reprimir aquilo que estamos a sentir isso perturba esse equilíbrio e faz com que sobre muito pouca paciência para responder da forma mais adequada.
Por isso, mais do que ficarmos a tentar corrigir a nossa falta de paciência, aquilo que é importante é, primeiro criar uma relação com ela, saber reconhecer quando está presente e saber que podemos assumi-la sem que isso crie muitos estragos nas nossas relações. Porque os estragos maiores acontecem precisamente quando estamos a tentar negá-la. Se criarmos essa relação com a nossa falta de paciência e formos capazes de a transmitir aos outros, assumindo que não estaremos no nosso melhor, provavelmente não faremos tantos estragos nas relações. Além disso quando criamos esta relação com a nossa falta de paciência ou irritabilidade, mesmo que não consigamos agir preventivamente (porque isso nem sempre é possível), pelo menos podemos reparar as relações quando sentimos que fizemos algo que não devíamos ou quando tomamos consciência de que fomos mais longe do que queríamos ter ido. E é importante termos consciência de que esta reparação é sempre possível desde que estejamos dispostos a assumir a nossa responsabilidade e disponíveis para perceber como podemos ter afectado a outra pessoa. É importante termos noção de que a falta de paciência não é necessariamente o que cria mais estragos na nossa relação com os filhos, o que cria mais estragos é a incapacidade de fazermos esta reparação e deixá-los sozinhos com o medo ou a angústia que lhes podemos ter provocado. E o medo de que a relação esteja em risco. Porque para uma criança, sobretudo as mais pequenas, é muito fácil sentir que não gostamos dela quando nos zangamos. Por isso é importante mostrar que a relação não está em risco. É importante também que não responsabilizemos a criança pela nossa falta de paciência, claro. E os pedidos de desculpa, quando sentimos que são necessários, têm de vir de um sentimento de capacidade, competência e responsabilidade, não de um lado mais frágil que mostre à criança que não sabemos bem aquilo que estamos a fazer porque isso pode ser muito assustador para eles.
Mas, na verdade, é importante saber que a paciência não se força, assim como não podemos forçar o amadurecimento ou desenvolvimento de uma criança, também não podemos forçar-nos a estar mais pacientes. Precisamos de criar as condições necessárias para que essa paciência aconteça. Precisamos de criar tempo para brincar no nosso dia-a-dia, de criar um espaço para libertar as nossas emoções, para as pôr em movimento. Porque as emoções paradas são como água estagnada: cheiram mal e fazem mal. A brincadeira para um adulto não precisa de ser o mesmo que para uma criança, precisa de ser um espaço de liberdade em que as emoções facilmente de movem, um espaço em que facilmente podemos entrar em contacto com elas. É este o conceito de recreio emocional do Gordon Neufeld e que é uma das formas essenciais de esvaziarmos os nossos copos para que o comportamento dos nossos filhos não os entorne rapidamente.
Numa palestra a que assisti do Gordon Neufeld, ele também explicava que na verdade aquilo que é mais importante quando nos zangamos com os nossos filhos (ou com quem quer que seja) é que sejamos capazes de sentir ao mesmo tempo a frustração - que traz a zanga - e o amor que temos por eles. Se formos capazes de nos agarrar a estas duas emoções ao mesmo tempo é menos provável que a nossa zanga faça estragos. Porque não é a falta de paciência só por si que faz estragos nas relações, é aquilo que fazemos com ela: quando responsabilizamos as crianças, quando julgamos o seu comportamento, quando as envergonhamos pelo que fizeram, quando as tratamos mal, sim aí podemos fazer estragos mais difíceis de reparar. Mas se formos capazes de sentir o amor ao mesmo tempo que a zanga, torna-se menos provável que estes estragos aconteçam.
Mas para isto é preciso maturidade. Só um cérebro maduro é que consegue sentir duas coisas opostas em simultâneo: as crianças com menos de seis anos não o conseguem fazer e alguns adultos também não, porque não tiveram as condições necessárias para que esse desenvolvimento aconteça.
E, mais uma vez aqui, a brincadeira também pode ser a resposta. Porque qualquer coisa que nos ponha em contacto com as emoções, ajuda a desenvolver o cérebro e facilita este amadurecimento. Não podemos forçar-nos a amadurecer, mas podemos reconhecer as condições importantes para que este desenvolvimento aconteça e tentar reproduzi-las na nossa vida.

